Porque é que o livre comércio a prejudica depois de a ter ajudado a expandir-se e a dominar o mundo inteiro? Porque é que a “globalização” — até há bem pouco tempo arvorada como bandeira do capitalismo ianque — passou a ser um mal a combater da forma mais extremada?
Algo chegou ao fim: o fôlego da expansão imperialista esgotou-se; sucedeu-lhe o sufoco.
A crise desencadeada em 2007-2008 — justamente no centro do capitalismo mundial e não numa periferia qualquer — mostrou que os efeitos positivos (para o capitalismo imperialista) da globalização tinham atingido os seus limites. Na forma de uma crise financeira revelou-se, de modo estrondoso, um mal que vinha de trás: a dificuldade, e depois a incapacidade, de acumulação demonstrada por um capitalismo altamente desenvolvido e expandido até onde a superfície da Terra permitia.
Esta incapacidade é o produto do extremo desenvolvimento do sistema (em todos os sentidos do termo: económicos, tecnológicos, geográficos), e não do seu atraso ou de qualquer limitação territorial — o que aponta para o facto de o mundo capitalista estar diante de uma barreira intransponível.
O arrastamento da crise evidenciada em 2007-2008, sem sinais de recuperação à vista, e, pelo contrário, com sintomas de uma próxima recaída ainda mais violenta — que já ninguém nega — dá conta dessa barreira. A alta tecnologia tem como contraponto a redução drástica da mão de obra e o desemprego. A superprodução coexiste com o subconsumo das populações. Grande parte da mais-valia produzida ou não se realiza ou não tem cabimento em aplicações produtivas, transformando-se em capital fictício e especulativo. E, coisa notável, a produção de mais-valia absoluta pelo aumento dos horários e dos ritmos de trabalho (que se tornam esmagadores) torna-se cada vez mais o recurso para compensar a quebra da produção de mais-valia relativa, dificultada pelo declínio dos ganhos de produtividade e do rendimento dos investimentos — o que revela uma pane no próprio motor do capitalismo.
Neste marasmo, não são apenas os números da economia ou a situação das classes trabalhadoras que entram em queda. É todo o edifício social, o sistema político e as instituições do regime que abrem brechas e ameaçam colapsar. A degradação das instituições estatais, a erosão dos partidos políticos afectos ao sistema, o fim do liberalismo burguês, o crescimento das organizações fascistas ou a fascização dos partidos do sistema democrático são disso sintoma.
Ora, dentro desta crise geral, sobressai a decadência das principais cabeças do imperialismo mundial: a tríade EUA-UE-Japão. O proteccionismo vindo dos EUA revela que a globalização, de que eles foram os principais beneficiários num primeiro momento, os transformou em vítima. Não tendo já sobre os seus principais concorrentes significativos argumentos económicos que lhes dêem vantagem numa concorrência aberta, os EUA apoiam-se na sua principal vantagem: a força militar.
É este “argumento” — sempre antes usado, de resto — que se perfila agora sem rebuço por detrás de todas as ameaças desencadeadas por Trump, seja na chantagem sobre a Europa para pagar mais para a NATO, seja nas taxas aplicadas a produtos estrangeiros, seja no rasgar de acordos, como o do Irão ou o do Clima, seja no acirramento dos conflitos com a China e a Rússia.
O proteccionismo norte-americano é mais um sinal, que se soma ao colapso de 2007-2008, da profunda e insolúvel crise do capitalismo mundial. Com a novidade de mostrar que a competição, com foros de vida-ou-morte, transbordou já para o campo do confronto político entre as principais potências.
Manuel Raposo
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